A pesca artesanal, com as suas técnicas e saberes transmitidos de geração em geração, moldou a identidade das comunidades costeiras e a gastronomia local. Tradicionalmente, a pesca nos Açores caracterizou-se pela sua natureza artesanal e pela diversidade de espécies capturadas.
Métodos como a pesca à linha e o salto e vara para o atum demonstram um profundo respeito pelos ciclos naturais e pela sustentabilidade dos recursos marinhos. Esta abordagem, que valoriza a qualidade em detrimento da quantidade, contribuiu para a reputação do pescado açoriano.
Ao longo dos séculos, a pesca nos Açores enfrentou desafios e transformações, desde a introdução de novas tecnologias até às mudanças nas políticas de gestão de recursos. No entanto, a resiliência das comunidades piscatórias e a riqueza dos ecossistemas marinhos permitiram a manutenção de uma atividade vital para a região. Hoje, a história da pesca nos Açores é um testemunho da ligação indissociável entre o homem, o mar e a terra, e um pilar fundamental para a Plataforma Nacional das Cozinhas do Mar.

A história da pesca nos Açores não é apenas um registo de capturas; é a narrativa épica de um povo que, isolado no coração do Atlântico, fez do oceano o seu caminho, o seu sustento e a sua alma. Como escreveu Raul Brandão em As Ilhas Desconhecidas (1924), ao deparar-se com a magnitude e o mistério do mar açoriano:
“O mar é tudo: é o caminho, é o sustento, é a tragédia e é o sonho. Nas ilhas, o mar não é um cenário, é o protagonista.” [1]
Esta ligação visceral é reforçada pelas palavras de José Manuel Bolieiro, Presidente do Governo Regional: “O mar é a nossa maior marca distintiva”, defendendo uma valorização assente na sustentabilidade, inovação e identidade.
Desde o povoamento no século XV, o mar foi simultaneamente a fronteira intransponível e a única ponte para o mundo [2]. Os primeiros colonos trouxeram técnicas do continente, mas as águas profundas e as correntes indomáveis do arquipélago exigiram uma adaptação rápida e engenhosa. A pesca não era uma escolha; era uma imposição da geografia [3].
Nas pequenas calhetas e portos de abrigo, como os de Mosteiros em São Miguel ou das Lajes no Pico, nasceram comunidades onde o som das ondas era o metrónomo da vida quotidiana. Ali, o peixe era a moeda de troca e a garantia de sobrevivência, num tempo em que a terra, embora fértil, era muitas vezes insuficiente para alimentar a todos. A historiografia local e os registos da Enciclopédia Açoriana [4] confirmam que a economia inicial se baseava numa trilogia essencial: trigo, gado e pesca.
Embora hoje os Açores sejam um santuário de biodiversidade, não se pode compreender a sua história sem mencionar a caça à baleia. Introduzida pelos baleeiros americanos no século XVIII, esta atividade moldou o carácter do homem açoriano: corajoso, resiliente e dotado de uma visão aguçada [5].
Como recordam os museus marítimos da região, entre eles o Museu Casa dos Pescadores [6], a baleação foi uma escola de coragem. A bravura dos açorianos foi imortalizada por Herman Melville em Moby Dick (1851):
“Não poucos destes caçadores de baleias são originários dos Açores… os ilhéus são os melhores caçadores de baleias.” [7]
Esta herança de vigia e perseguição transpôs-se naturalmente para a pesca do atum. O “olho” para detetar a mancha no horizonte — outrora um sopro de baleia, hoje o frenesim das aves marinhas sobre o cardume — continua a ser a ferramenta mais preciosa do mestre pescador. É uma transição poética: da lança que tirava a vida à vara que, de forma sustentável, garante o futuro.
Entre 1896 e 1949 foram capturadas cerca de 12.000 baleias, demonstrando a escala desta atividade [8]. A proibição da caça comercial em 1986, com a entrada de Portugal na CEE, marcou o fim de uma era, com o último cachalote capturado em 1987 [5].
A técnica de Salto e Vara é o ex-líbris da pesca sustentável nos Açores. É um método que parece parado no tempo, mas que é, na verdade, a vanguarda da ecologia marinha. Como descreve a National Geographic [9], esta faina é uma “simbiose temporária” entre o navio e o cardume.
O navio e a mancha de atum rodopiam como “dançarinos de tango” até que o peixe se renda ao abrigo da embarcação. É um jogo de paciência onde, por vezes, o pescador aguarda dez horas pelo “frenesi alimentar” da alvorada ou do crepúsculo.
Ao contrário do arrasto cego das grandes frotas, aqui o pescador “tranca” o peixe individualmente. Seleciona-se o exemplar, respeita-se o ciclo de vida e garante-se a certificação Dolphin Safe [10]. É uma pesca com rosto e com nome. Os estudos do Okeanos (Universidade dos Açores) [11] comprovam o impacto quase nulo em capturas acessórias.
Como dizem os antigos pescadores das Velas ou de Santa Maria: “O mar dá, mas o mar também pede respeito.” Este equilíbrio é o que permite que, ainda hoje, embarcações como o Mestre Soares ou o Azimute continuem a sulcar as águas com a mesma dignidade de outrora.
Raul Brandão, fascinado pela luz e pela dureza da vida insular, descreveu os Açores como uma “entrevista com o mar” [1]. Para ele, o Corvo era uma “democracia cristã de lavradores e pescadores que enfrentam a pavorosa solidão atlântica” [1].
Mas não é apenas Brandão. Autores como Vitorino Nemésio, em Mau Tempo no Canal [12], imortalizaram a angústia e o fascínio de quem vive cercado por água. Esta literatura não é apenas ficção; é o testemunho de uma vida onde o horizonte é sempre azul e as notícias chegam com o sabor do sal.
Sabia que a primeira pescaria de atum do mundo a receber a certificação Friend of the Sea foi precisamente a dos Açores? [13] Este reconhecimento internacional é o eco moderno da sabedoria antiga.
Ao longo dos séculos, a pesca enfrentou tempestades e crises de escassez. No entanto, a resiliência açoriana encontrou sempre um caminho. No século XIX e XX, a introdução da indústria das conservas — como a emblemática Santa Catarina [14] ou a Cofaco — trouxe uma nova dinâmica.
O atum, antes consumido apenas localmente, passou a viajar pelo mundo em latas que hoje são verdadeiros objetos de culto gastronómico, preservando não apenas o peixe, mas o saber-fazer de gerações. Relatórios da Secretaria Regional do Mar e das Pescas indicam que as conservas de atum são um dos produtos açorianos com maior valor acrescentado [15].
Hoje, a história da pesca nos Açores continua a ser escrita por homens como João Silva, que aos 72 anos continua a ser o guardião da “isca viva” a bordo [9]. É um testemunho vivo de que a tradição não é um peso, mas uma bússola.
A Plataforma Nacional das Cozinhas do Mar nasce deste legado profundo. Valorizar o passado — as artes de salto e vara, as histórias de coragem e a sabedoria dos mestres — é a única forma de garantir que o lema “Do Oceano à Mesa” continue a ser uma promessa de qualidade, sabor e sustentabilidade para as gerações vindouras.
“A pesca nos Açores é mais do que uma atividade económica. É uma parte da nossa história e da nossa identidade que deve ser valorizada.” [16]